A tática, o coletivo e o José Mourinho: uma questão de(o) português!
texto do professor Dr. Rodrigo Azevedo Leitão publicado originalmente na Universidade do Futebol
Nas
teorias do treinamento desportivo, um dos princípios mais discutidos e
pontuados é o da SOBRECARGA. Ele rege que para o organismo (integral) do atleta
continuar se desenvolvendo e fazendo evoluir sua performance, é necessário que
haja um “agente estressor” que possa gerar esse desenvolvimento.
Esse “agente estressor” no caso do atleta é o treinamento desportivo. Para conseguir o “estresse” que vai provocar uma REAÇÃO do organismo (para o seu desenvolvimento) é necessária uma carga de magnitude superior àquela que ele está “acostumado”; uma SOBRECARGA.
Esse “agente estressor” no caso do atleta é o treinamento desportivo. Para conseguir o “estresse” que vai provocar uma REAÇÃO do organismo (para o seu desenvolvimento) é necessária uma carga de magnitude superior àquela que ele está “acostumado”; uma SOBRECARGA.
Pois
bem. Uma questão que tem intrigado e rondado a cabeça de cientistas do
desporto, treinadores e amantes do futebol é a que diz respeito à importância
do “Coletivo” nos treinamentos de uma equipe de futebol.
Quando
pensamos em “Coletivo” imaginamos um jogo (reservas e titulares,
titulares e equipe B, etc. e tal) próximo ao jogo competitivo formal, com o
objetivo de preparar ou observar uma equipe para uma partida oficial de
campeonato. O fato, é que temos hoje treinadores em evidência na mídia
defendendo o menor número possível de coletivos; priorizando jogosreduzidos e treinamentos técnico-táticos.
Na
“contramão” temos José Mourinho (vitorioso técnico do Chelsea) e um grupo
crescente de Estudiosos e Cientistas do Desporto que defendem a idéia de que se
deve treinar o jogo, jogando (só se consegue andar de bicicleta melhor, andando
de bicicleta; só se aprende a dançar melhor, dançando; só se consegue jogar
melhor, jogando).
Nessa
perspectiva, não a nada mais real para criar situações que se assemelhem ao
jogo do que o tal “Coletivo”.
Temos
aí um problema a se resolver. Um corredor treina corridas para melhorar sua
performance. Não corre, porém sempre na mesma velocidade, na mesma distância.
Corre em velocidades próximas aquelas de sua competição, às vezes menores, às
vezes maiores; o que é verdadeiro (ou deveria ser) também para as distâncias
percorridas. Em outras palavras ele tem no seu treinamento uma alteração de
cargas que exigem do seu organismo (integral) respostas que permitem seu
desenvolvimento (SOBRECARGA).
Talvez
seja fácil pensar em sobrecarga imaginando adaptações físicas. Mas como
imaginarmos uma sobrecarga técnico-tática, ou melhor, uma sobrecarga
“técnico-tática-fisico-mental”? Como abstrairmos a idéia de um “agente
estressor” que provoque respostas integrais e integradas no jogador de futebol,
que o permita se desenvolver, aumentando sua performance de jogo?
Certamente
nos jogos em campo reduzido o volume de passes, finalizações, desarmes,
coberturas, marcações duplas (e as mais diversas e inusitadas
situações-problema de jogo) ocorrem em maior escala. Em outras palavras, no
campo reduzido a sobrecarga parece maior. Ao se manipular as regras do jogo
nesses treinamentos, é possível ainda priorizar esse ou aquele princípio do
jogo, amplificando ainda mais a sobrecarga para determinada variável.
Ocorre,
porém, que ao mesmo tempo em que se exige mais de determinadas variáveis,
corre-se o risco de “desprestigiar” outras. Por isso, a condução de um
treinamento com prevalência de um objetivo tático precisa ter regras bem
ajustadas, para que ao se buscar de forma específica a sobrecarga do jogo não ocorra um indesejável distanciamento do próprio
jogo.
Por
outro lado, os coletivos são “exercícios” que se aproximam do jogo e que podem
trazer situações-problema altamente especializadas. Talvez a carga do coletivo
não seja a SOBRECARGA desejada para o desenvolvimento integral do atleta em sua
preparação para o jogo, mas é inegável que ele exige o que mais próximo de um
jogo um exercício pode exigir.
No
entanto, mesmo o coletivo por si só pode não representar as exigências que
proporcionem o desenvolvimento da equipe. Se uma equipe joga no 4-4-2 em linha e no coletivo enfrenta invariavelmente um 4-4-2 em losango, estará ela exercitando situações-problema
restritas às possibilidades desse confronto. Então, mesmo no coletivo, deve-se
buscar um maior número de situações que permitam a equipe uma melhor
compreensão sobre o jogo.
Certamente,
se fossem os coletivos a solução para a preparação de uma equipe, talvez melhor
fosse buscar algo mais específico ainda: ao invés de treinar para o jogo
através do coletivo, dever-se-ia treinar para o jogo jogando sempre formalmente
de forma competitiva (por exemplo participando de competições paralelas de
menor expressão ou fazendo amistosos contra equipes de nível).
Então,
a melhor solução é quebrarmos paradigmas (como tem feito o português José
Mourinho). Os jogos em campo reduzido, os jogos adaptados, os
treinamentos de ataque contra defesa ou os “Coletivos” devem ser etapas de
um processo que se completa jogando o jogo. O coletivo não deve ser entendido
como um jogo sem pretensões de melhora tática. É óbvio, mas ainda se alardeia
que treino tático é uma coisa, treino técnico é outra e coletivo... (Então um coletivo onde há
uma regra que diz que a equipe de posse da bola, ao ultrapassar a linha do
meio-campo, tenha 4 segundos para ter todos os jogadores (exceto o goleiro)
posicionados dessa linha para frente, deixa de ser coletivo porque tem uma
regra que taticamente “exige” rápida compactação?).
Da
mesma forma, um jogo usando metade do campo, trabalhando ataque contra defesa
deixa de ser jogo “coletivo” porque é chamado de treino tático?
Certa
vez um técnico do Corinthians viu seu time sofrer um gol do Santos logo após
ter um de seus jogadores expulsos. Após o jogo disse que sua equipe sofrera o
gol porque não houve tempo hábil para orientá-la para aquela situação (de um
jogador a menos em dada posição). Qual a relação disso com o texto acima?
Certamente os jogadores, condicionados à tutela do comando técnico, não
foram capazes de, naquela situação-problema, resolver, a partir derápida leitura do jogo, àquela nova exigência tática.
Então
vos pergunto, caros amigos: o que faltou para o rápido re-arranjo tático da
equipe? Mais “coletivos” ou mais “treinamentos táticos”?
*a reprodução do texto só está autorizada legalmente, se mencionados nome do autor e fonte virtual.
Caro Rodrigo, tudo bem?
ResponderEliminarTenho acompanhado os seus textos e comentários sobre a postura de vários pontos dentro do futebol contemporâneo. Gostaria de parabeniza-lo, suas idéias são realmente muito interessantes e expoe situaçoes que nos fazem refletir sobre a modalidade. Continue trabalhando com essa clareza.
Att. Prof. Marcio F. Correa
WebSite: www.marciofariacorrea.com